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Quando você se descobre imortal, você se vê só, sem ninguém
com que compartilhar toda a eternidade que lhe resta, e no meu caso, ninguém
para me mostrar o que fazer com todo esse tempo.
Depois do período necessário para se acostumar com todas as
mudanças em sua “vida”, você passa por um estado de êxtase quando percebe que
poucas coisas podem te ferir de verdade, comete as maiores loucuras.
Fiz de tudo que me dera na telha durante as primeiras quatro
décadas de imortalidade, usei todas as drogas possíveis durante as décadas de
1970 e 1980, poucas realmente me deram algum barato. Já tive muito dinheiro
obtido de forma ilícita, com qual banquei luxos desnecessários, comi alimentos
caros que de nada me adiantavam por puro prazer, já que apenas sangue matava
minha fome. Já me alimentei de minhas vitimas até elas caírem sem vida no chão,
hoje em dia não há necessidade para tanto.
A verdade é que já fiz de tudo, um erro que imagino- já que
não conheci mais nenhum- que muitos vampiros devem ter cometido, aproveitar de
mais seus primeiros anos e se esquecer de guardar emoções para o resto de sua
vida vazia.
Em um momento de total e desesperador tédio, resolvi tentar
andar a luz do dia, para saber a sensação que tinha, havia tentado a décadas antes
e não conseguira, mas essa tentativa também se mostrou inútil, mesmo
determinada a aguentar minha pele queimando, meus instintos me repeliram de
volta para casa após três passos fora da sombra. Como estava bem alimentada,
minha pele se recuperou em poucos minutos me poupando de ter de cuidar das feridas,
então, logo me vi entediada novamente.
Quando a noite caia, vagava por ela sem rumo, às vezes para
me alimentar, às vezes só para não ficar trancada dentro de casa pensando se
devia ou não me matar.
Apesar de não entrar no mar por saber os efeitos que o sal
faz em minha delicada pele, gosto de andar na orla da praia. O ar é mais
fresco, aliviando um pouco o calor terrível que geralmente faz durante todo o ano,
mesmo durante o inverno.
Era uma caminhada silenciosa e solitária na maioria das vezes,
interrompida às vezes por alguma tentativa frustrada de algum viciado em
drogas, ou por algum bêbado saindo de uma balada no fim de semana que às vezes
puxavam assunto comigo. Por vezes até troco algumas poucas palavras com eles, às
vezes saia para beber com algum grupo de jovens desconhecidos.
Hoje a noite estava particularmente quente, mesmo aqui na
praia. A falta da capacidade de suar não estava ajudando muito. Estava me
levantando para um segundo banho nos chuveiros, quando escuto o inicio de uma música,
cantada por várias vozes, acompanhada
por um violão e o batuque de um cajón, o que só poderia indicar algum tipo de
luau. Resolvi que podia ser menos tedioso do que permanecer moscando sozinha.
Quando me aproximei do local, ninguém notou minha presença,
então logo me sentei entre um casal, que estava ocupado demais com sua troca
de salivas, e um grupo de jovens que conversavam alto de mais para prestarem
atenção na música.
Tentei não prestar atenção na conversa, mas no momento em
que ouvi a palavra vampiro no assunto foi impossível ignorar. No primeiro
momento me assustei, achando que por algum motivo tinha sido descoberta, mas
logo me dei conta que eles não perceberam que eu estava ali, ouvindo tudo.
- To te falando cara! A menina me garantiu que foi um
vampiro! Você viu como estava o pescoço dela, todo machucado.
- Aquilo me parecia uma noite muito divertida isso sim!
Todos deram muitas risadas e logo entraram no assunto de
como aquela garota era rodada, e de que qualquer um podia ter deixado àquelas
marcas, mas o rapaz que aparentemente acreditava nela mostrava sinais de que
estava verdadeiramente irritado.
Não sei por que ele acreditaria nessa história, afinal a ideia de uma jovem se engalfinhando com algum rapaz é muito mais plausível. Talvez ele fosse um daqueles “doidos” que acreditam em “histórias de terror”, ou talvez ele apenas fosse afim da garota, e a ideia do vampiro lhe fosse mais agradável.
De repente me ocorrera o fato, de que fazia dias que não me alimentava,
e fazia meses que não mordera nenhuma moça, preferindo ultimamente, jovens
rapazes bêbados que encontrava a noite.
Será que realmente podia ter sido algum outro imortal, vagando pelas ruas da minha cidade? A ideia me causava inicialmente uma espécie de raiva e ciúmes, pois não estava acostumada a compartilhar nada, mas uma enorme curiosidade me consumiu. O único contato com outro vampiro foi no momento de minha transformação, do qual não me lembro de quase nada, além da dor e da enorme quantidade de sangue tanto em mim, quanto nos braços que me seguravam, e do gosto parecido com ferrugem em minha boca.
Então, decididamente me vi disposta a encontrar esse invasor, que perambulava pela minha cidade. Isso com toda certeza me manteria mais ocupada.
A. Constantino Brandão
Legal. Simples e direto. Bom gancho para a continuação.
ResponderExcluirParabéns, muito bem escrito ...
ResponderExcluirMe lembrou de alguns trechos que eu lia quando jogava RPG de Vampiro , me lembrou Anne Rice :)
por favor continue, fiquei curioso com o possível encontro ^^