~Prepara que lá vem textão~
Desde muito nova eu já percebi que a minha relação com a culpa e com os pensamentos disfuncionais (apesar de não saber nomear isso ainda) era diferente, mais intensa e aparentemente mais aflitiva do que na maior parte das pessoas.
Não sei exatamente quando e nem como percebi que tinha TOC (transtorno obsessivo compulsivo), mas foi cedo. Lembro de assistir uma reportagem na TV que falava sobre pessoas com o transtorno e de pensar "eu tenho isso", mesmo que ela se manifestasse diferente em cada uma delas. Na reportagem mencionada uma mulher que precisava guardar as embalagens de tudo que usava, porque tinha todo um ritual para jogar fora, que era extremamente cansativo, então ela preferia postergar, o que gerava uma acúmulo de lixo em sua casa. Esse TOC nada tinha a ver com o que eu identificava em mim, mas a aflição, a culpa nos aproximava.
Eu nunca escondi minha condição da minha família, mas claro, sempre fui cuidadosa com os meus "rituais". E eu tinha vários! Talvez por ter sido tão discreta, ninguém nunca tenha entendido realmente o que se passava na minha cabeça. Vamos lembrar, também, que nos anos 1990, problemas psicológicos não eram abertamente debatidos como hoje em dia. Por isso, eu só fui passar em um psicólogo quase aos 30 anos (e inicialmente por outras razões).
Durante muitos anos, eu aprendi a lidar com as minhas manias, com o sentimento constante de culpa e com as crises de ansiedade, que eu só fui descobrir o que eram quase agora. Naquela época não se falava sobre ansiedade nem entre adultos, quem dirá em uma criança saudável e feliz.
Meu TOC ficou mais severo na minha pré-adolescência, intensificado com o início da minha catequese (que eu fui por livre e espotanêa vontade, sem imaginar quais seriam as consequências). A religião Cristã é um prato cheio de culpa, o que definitivamente não era algo que eu precisasse de mais.
Ainda sim, continuei sem tratamento. Aprendi a "lidar e disfarçar". Como disse antes, nunca escondi de ninguém que eu tinha TOC, mas também nunca parei para dar muito detalhes para ninguém, então, acho que muita gente nem levou muito a sério. Se eu vivia uma vida normal, não devia ser nada demais, correto? Eu mesma já estava acostumada e "não dava muita bola". Era cansativo, claro! Mas era algo com o qual eu convivi boa parte da minha vida. Era sofrido, mas até mesmo admitir isso me parecia errado. Eu vivia bem, afinal!
Eu conversava com a minha mãe e ela até tentava me ajudar com algumas manias. Ela fazia o que estava dentro do alcance dela na época. A geração dos nossos pais não falava tanto sobre saúde mental quanto a nossa.
Somente durante um período muito complicado da minha vida adulta é que eu fui procurar um psicólogo, pois estava tendo constantes crises de choro e não estava sabendo lidar com situações delicadas pelas quais estava passando. Somente aí, aos 28 anos, é que finalmente procurei ajuda profissional.
No período da pandemia, fiz minha primeira consulta com o psiquiatra. Saí de lá medicada e com a confirmação de que realmente tinha TOC. Talvez o laudo tenha saído muito rápido, eu sei. Mas não é como se eu já não soubesse a vida toda disso.
Fiz tratamento medicamentoso por aproximadamente três anos e tive um bom resultado. Apesar de ainda sentir ansiedade e culpa por pensamentos que eu não posso controlar, esse sentimento passou a ser mais administrável. A angústia demorava menos para passar.
Somente com os sintomas de TOC menos latentes é que fui percebendo que ele não era minha única questão. Tive minha primeira crise de ansiedade (até hoje sem motivo aparente). Só aí revisitei sensações que senti quando criança e percebi que já tinha tido aquilo antes, só que com menor intensidade.
Atualmente já não faço mais o uso de medicação e, por enquanto, estou sem acompanhamento psicológico, mas tenho conseguido administrar bem e tenho tido muito mais dias bons do que momentos ruins. Claro, não estou curada. Aliás, esse post veio exatamente do fato de ter sentido uma angústia que não soube identificar a causa. Como se eu tivesse feito algo errado e não lembrasse o que.
No entanto o tratamento que eu já fiz me ajuda a lidar com esses momentos. Por isso, sempre indico que as pessoas procurem acompanhamento/tratamento. Às vezes nos acostumamos com o desconforto, com o sofrimento. Mas se podemos ter uma qualidade de vida melhor, por que não tentar?
Recentemente recebi o vídeo de uma influencer que fala sobre o TOC dela, que é bem parecido com o meu. Nada de arrumar coisas simétricas ou não pisar em linhas (não na maior parte do tempo pelo menos rsrs). Segue o vídeo porque eu me identifiquei muito com a forma, apesar de eu nunca ter identificado possíveis motivos para o meu, como ela conseguiu identificar.
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